Vencedores do Concurso de Crônicas Literárias da Flink Sampa 2014 são premiados durante a Festa

ca6

Com critério e satisfação, a banca julgadora, coordenada pelo professor João Caetano, da Universidade Zumbi dos Palmares escolheu as 10 melhores crônicas do Concurso Flink Sampa de Literatura, cujo tema “Vida e Obra da Escritora Carolina Maria de Jesus” Ontem, Hoje e Sempre, baseado no livro “Quarto de Despejo”.

Nesta edição, Carolina foi homenageada pelo seu centenário de nascimento, trajetória, conquistas e legado. Segundo o professor João Caetano, a iniciativa contribuiu imensamente no incentivo a leitura e integração dos alunos com realidades do cotidiano de uma grande metrópole, independente do período.  Na ocasião, conheceram e se familiarizaram com a obra da escritora negra e com raça que, especialmente após a sua morte, deixou aprendizados incríveis, principalmente às pessoas que vivem em situação de exclusão social nas grandes metrópoles brasileiras. Sinto que essa excelente idéia só agregou para a Flink Sampa e para as escolas participantes, pois recebemos textos, profissionais, alunos e familiares entusiasmados e otimistas para uma escola cada vez mais integrada, participativa e literária.

Com emoção, a primeira colocada no Concurso de Literatura Flink Sampa, Letícia dos Santos, 15 anos, estudante da Escola Estadual Santos Dias falou da importância da participação e a oportunidade em conhecer a obra da escritora Carolina Maria de Jesus. “Estou muito feliz com o reconhecimento e o prêmio. Inclusive, o meu sonho é fazer o curso de letras. Adoro escrever”, disse a vencedora. A aluna teve a orientação da professora Agda Ferreira Oliveira de Morais.

Segundo o reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, “organizar um evento literário contando com a integração das escolas de todo o estado de São Paulo só nos enche de alegria. Nada seria igual sem a participação e o envolvimento dos alunos e professores. A festa Literária é promovida para as escolas, escritores, personalidades e amantes da literatura do mundo inteiro. Agradecemos imensamente a contribuição das instituições, o talento e inspirações dos alunos para a produção e envio dos textos, bem como a presença durante a Flink Sampa 2014”, enfatizou o reitor.

Veja a lista com as 10 crônicas vencedoras, seguindo a ordem de escolha entre os 10 melhores textos.
1º lugar a aluna Letícia Oliveira Gonçalves dos Santos, 15 anos, 1º ano da Escola Estadual Santos Dias da Silva – com a crônica Favela de Pedra, cujo pseudônimo Letchuska sob a orientação da professora Agda Ferreira Oliveira de Morais.

2º Bruno Graciano de Jesus Lima, 18 anos, aluno do 6/7º ano da EMEF Assad Abdala, com a crônica “A bruxa e a Bola”, Pseudônimo Socorro Batista sob orientação da professora - Luciane A. A Gimenes.

3º Caroline dos Santos Brandão, aluna do 3º ano da ETEC Mandaqui – com a crônica – Pulseira de Latão – Pseudônimo – orientador Natalia Moura Leonardo

4º Amarilis Araújo Domingues, 17 anos - aluna do 3º ano da ETEC Mandaqui – com a crônica Extraordinariamente Cotidiano - Pseudônimo Nina Cocti, sob orientação da professora Natalia Moura Leonardo.

5º Fernanda Nuzzo Pinheiro Leal - ETEC Mandaqui – 1º ano, com a crônica “A Perola dos Porcos” cujo pseudônimo – Nuzzo, sob orientação da professora Natalia Moura Leonardo

6º Murilo Polimante, da 7ª serie C do Centro Educacional Pioneiro com a crônica “Chuleto na Favela Kiwi”, cujo pseudônimo Polpolimom com orientação do professor Francisley da Silva Dias

7º Isabel Alfieri dos Santos - ETEC Mandaqui Córrego com água de sonho – 1 ano – pseudônimo – Helena – orientador Natalia Moura Leonardo

8º Felipe Lakater Pereira - ETEC Mandaqui – 3 ano – Quem gosta dos pobres? Orientador: Natalia Moura Leonardo – pseudônimo Dona Mane (Marilena)

9º Ester Messias da Silva- EMEF DES. Aquilles de Oliveira Ribeiro 8 ano – 8B – As lutas de Rita, orientador Nagila Euclides da Silva Polido – pseudônimo Ruth Monrol, nasceu 2001

10º Jady Santana Salestiano Rodrigues, aluno do 3º ano da ETEC Mandaqui – Um silêncio doido, uma vida perdida, orientador Natalia Moura Leonardo – pseudônimo Nina de Jesus

1.    Favela de pedra
2.    A bruxa e a bola
3.    Pulseira de latão
4.    Extraordinariamente cotidiano
5.    Pérola dos porcos
6.    Chuleto na favela kiwi
7.    Córrego com água de sonho
8.    Quem gosta dos pobres?
9.    As lutas de Rita
10.    Um silêncio doido

Integra das Crônicas
Autora: Letícia
Pseudônimo: Letchuska
Título: Favela de Pedra

Eram duas da manhã. Sábado. Corria com uma sacola escorregando do ombro pela viela. Minha respiração estava cortada e meus pulmões ardiam. Eu corria como quem vai tirar o pai da forca. Na verdade, eu corria para tirar a minha vida da forca. Corria contra a lembrança do eco de um tiro, corria para alcançar os segundos, corria contra a morte. ''Mete o pé, Lúcia! Se manda pra casa da Vera! Cê tá me ouvindo? Se manda daqui.'' Estas foram as últimas palavras que minha mãe me disse. Ela me sacudiu na cama e jogou todas as minhas roupas numa sacola enquanto falava coisas desconexas. Ela estava drogada, eu sabia pelo modo como falava e pelos seus olhos avermelhados. Ela havia se metido em confusão, estava devendo pros caras da boca. Foi o que fiquei sabendo, depois que me mandei de casa e a perdi para as drogas e para dois tiros no peito.
Eu nunca tive muito, mas ali perdi as poucas coisas que tinha. Perdi minha mãe, meu barraco na ladeira da rua sete, as fotos de família que me faziam acreditar que um dia fomos felizes e, principalmente, minha identidade. Eu não sabia mais quem eu era, sair da favela era pior do que entrar nela, claro que sair da miséria era considerado bom, mas não quando se sai dela de mãos abanando.
Uma moto passou zunindo e buzinou quando parei em sua frente tentando focar meu olhar: "tá na nóia, novinha? Rala daí."
Subi num ônibus e sentei do lado de um tio fedendo a cigarro.
Olhando pela janela, tentava imaginar se minha mãe ainda estava viva. Aquela era a minha realidade, medo, dor, sofrimento, miséria e morte como vizinha no barraco do lado. Os tiroteios que nunca tinham fim, o barro e a lama, o córrego fedendo, as crianças que mal aprenderam a andar apontando uma arma na sua cabeça e um baseado na mão. Favela. Periferia. Aterro sanitário das classes sociais. A realidade do mundo de verdade. Quem nasce na favela, sabe o que é vida corrida, sabe o que é preconceito de verdade e neguinho ainda acha que só sai bandidagem.
Olhei para meus pés, meu chinelo arrebentado e meu pé esfolado, dignos de uma favelada, cafuza e catadora de papelão. Agora, eu estava indo para longe disso... tava me mandando com uma sacola furada e um livro, que achei jogado no meio dos papelões. Depois de um tempo me senti cansada, fechei meus olhos e apertei a alça da sacola nas mãos.
Acordei com o tiozinho me empurrando para fora do banco, levantei e desci do ônibus sentindo o cheiro de fumaça. Eu estava no terminal dos ônibus, sentei num dos bancos e olhei ao redor. Então isso era São Paulo, prédios, trânsito, correria e gente bem vestida. Sonhei tanto em um dia chegar aqui, pra descobrir que São Paulo não passava de uma grande favela arrumadinha. Sai de uma pra entrar em outra, segui o destino incerto para favela de pedra.

A Bruxa e a bola

Autor (a): Bruno
Pseudônimo:
Título: A Bruxa e a bola

Bruno Santos

Era final de ano, o sol do meio dia queimava nossos pés que levantavam a poeira da rua enquanto a gente corria atrás da bola. O calor era tanto, todo dia, que queimava o couro da gente e deixava os negritinho do morro tudo da mesma cor. O povo passava e olhava assim de rabo de olho, com medo de levar bolada e xingava a gente como se fosse filho da mesma mãe. A gente nem ligava, parecia mesmo que era tudo igual, encardido, magrelo, tudo filho da favela.
Esse dia era especial, podiam falar o que quisessem porque um dos meninos tinha achado uma bola no lixo. Tava quase novinha, dava até dó de chutar no começo, mas quanto mais a gente jogava a vontade de fazer o gol era tanta que ninguém mais lembrou de cuidar da bola. Tudo ia bem até que o Zezinho chutou mais forte e acertou o barraco da Dona Maria Flor, bem o dela que de flor só tinha o nome, parecia mais é uma bruxa. Não demorou muito e a coisa ruim saiu gritando com um facão na mão berrando que ia furar todo mundo e pior, que ia acabar com a bola. Uns correram, outros choraram pedindo socorro e o dono da bola, mesmo com medo, implorava pelo amor de Deus pra ela não fazer aquilo. Pior é que mulher não tinha coração, despedaçou a bichinha ali na nossa frente, jogou de volta na rua e entrou pro barraco dando risada. Nunca vi tanta tristeza, a gente sentou foi no meio da rua mesmo, um olhando pra cara preta do outro, sem saber o que fazer. Se pelo menos tivesse dinheiro para comprar outra tudo bem, mas ninguém ali nunca ia poder comprar uma bola daquela, novinha. Não passou dois minutos e alguém gritou “bora brincar de pega pega”, todo mundo levantou e a poeira subiu de novo. O povo agora xingava quando a gente queria mesmo é ver a Dona Maria Flor passar e sem querer dar uma trombada pra jogar aquela bruxa longe.

Autor (a): Caroline
Pseudônimo: Socorro Batista
Título: Pulseira de Latão

A chuva de ontem foi pesada, castigou todo o mundo daqui de Santa Rita. A ventania quase despregou os barracos do chão. Quase perco a porta e as janelas de compensado. A burra da Clementina cismou em sair naquele temporal. Mal botou a pata na soleira da porta espatifou-se na parede. Gata burra! Caí no riso.
Agora de manhã posso ver o estrago de ontem. A casa de Dona Meire está torta, ela grita impaciente pro marido desentortá-la. Em vão, porque o marido está, como sempre, bêbado. A casa de Seu João perdeu o telhado. E, meu Deus! Senhor Sisso perdeu a casa inteira! O velho é o único daqui que possuía uma casa de alvenaria. E foi o único que teve a casa levada pelo vento. Olho embasbacada pro terreno vazio. Ele está nos xingando e culpando por ter perdido tudo. Esse senhor não suporta viver junto de nós favelados. Diz que a favela corrompeu todos as suas ambições e que ainda sai daqui. Homem de alma fraca e egoísta! Era o que mais tinha e o que mais perdeu. Como se fosse o único a sonhar e querer mudar de vida.Mal amado infeliz!
Saio à rua. Preciso ver o estrago no meu barraco. Percebo que um bicho enorme está grudado à porta, mas de resto, perfeição! Se é que viver num barraco é a perfeição, mas mesmo assim... Contente, decido visitar Mãe Nilda. Ela mora do outro lado da favela. Junto algumas moedas do fundo da gaveta e parto para o ponto de ônibus.
Quarenta minutos se passam. O motorista e o cobrador por nada levantam as bundas das cadeiras do bar do Seu Antônio. Para passar o tempo, fico brincando com a pulseira de latão de minha mãe. Ao mexê-la, sinto uma saudade tremenda e sorrio. Meu pai fugiu, foi preso ou até morreu. O besta mexia com drogas e roubos. Deixou minha mãe quando grávida.Depois da morte dela, Dona Nilda tomou conta de mim. Adoro aquela mulher. Visito ela sempre quando posso.
Olho para frente. Um homem que não conheço me encara. De igual só temos a cor da pele. Desvio o olhar. Não acredito que seja flerte, mas mesmo assim vejo se estou cheirando mal. Não é meu cheiro, me lavei ontem. Arrumo o cabelo também, mas não há muito que possa mudar. Desisto. Ele continua a me olhar de maneira estranha. Começo a me preocupar. Ele se aproxima e diz “Passa a pulseira!”. Filho da mãe! Não posso lhe entregar minha pulseira, mas também não quero morrer! Ele faz volume em seu bolso. Será uma arma? Por impulso, vomito um grande “NÃO!”. Sustento seu olhar. Sua carranca se desmancha e seu sorriso fica trêmulo. “Desculpa moça, estava só brincando!”. Era só o que me faltava! Quanta ousadia! Nessa hora, o motor do ônibus é ligado. Entro, mas o homem não. Fico o caminho todo até Mãe Nilda pensando: “Que pobre deslavado! A pulseira era de latão!”.
Socorro Batista

Imprimir