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Histórico: Carolina Maria de Jesus

Escritora Carolina Maria de Jesus, no centenário de seu nascimento

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento, cidade do interior de Minas Gerais, a 14 de março de 1914, portanto há cem anos, numa comunidade rural onde seus pais eram meeiros. De família pobre, composta por mais sete irmãos, trabalha desde a infância. Filha ilegítima de um homem casado, não teve uma infância muito feliz. Negra e pobre, logo cedo teve que trabalhar duro para ajudar no sustento da família.

Aos sete anos, a mãe de Carolina forçou-a a frequentar a escola, o colégio Allen Kardec, depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar os estudos dela e de outras crianças pobres do bairro. Carolina parou de frequentar a escola no segundo ano, mas foi o bastante para aprender a ler e a escrever. Muda-se com a família para uma fazenda em Lageado, também em Minas, onde trabalham como lavradores. Em 1927, retorna a Sacramento, e, devido as dificuldades financeiras por que passava a família, migra para Franca, São Paulo, em 1930, passando o primeiro ano na fazenda Santa Cruz e, depois, na cidade, onde trabalha como ajudante na Santa Casa de Franca, auxiliar de cozinha e doméstica. A mãe de Carolina tinha dois filhos ilegítimos, o que ocasionou sua expulsão da Igreja Católica quando ainda era jovem. No entanto, ao longo da vida, ela foi uma católica devota, mesmo nunca tendo sido readmitida na congregação. Em seu diário, Carolina muitas vezes fez menção as suas preferências religiosas, talvez recordando aspectos da época de sua infância na cidade mineira.

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No ano de 1937, sua mãe morreu, vai para São Paulo em busca de melhores condições de vida. Carolina construiu sua própria casa, usando madeira, lata, papelão e qualquer coisa que pudesse encontrar, e foi morar na favela do Canindé, à beira do rio Tietê, onde viveu de 1948 a 1961, sobrevivendo como catadora de papel e ferro velho. Ela saía todas as noites para catar papel a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família. Não mendigava, dizia ela: “Mendigos pedem dinheiro; eu peço livros”. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas. Começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como era morar na favela. Isto aborrecia seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e por isso se sentiam desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles.

Teve vários envolvimentos amorosos quando jovem, mas sempre se recusou a casar-se, por ter presenciado muitos casos de violência doméstica, geralmente contra a mulher. Preferiu permanecer solteira. Cada um dos seus três filhos era de um pai diferente, sendo um deles um homem de posses e branco. Em seu diário, ela detalha o cotidiano dos moradores da favela e, sem rodeios, descreve os fatos políticos e sociais que via. Ela escreve sobre como a pobreza e o desespero podem levar pessoas boas a trair seus princípios simplesmente para assim conseguir comida para si e suas famílias.

Histórico de vida

citacaoO diário de Carolina Maria de Jesus foi publicado em forma de livro em agosto de 1960, depois de anos de muitas tentativas frustradas. Ela foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas em abril de 1958, que se interessa pelos seus 35 cadernos de anotações em forma de diário, e publica um artigo na Folha da Noite. No ano seguinte, 1959, já trabalhando na revista O Cruzeiro, o jornalista divulga trechos dos relatos escritos pela autora.

Dantas cobria a abertura de um pequeno parque municipal. Imediatamente após a cerimônia, uma gangue de rua chegou e reivindicou a área, perseguindo as crianças. Dantas viu Carolina de pé na beira do local gritando "Saiam ou eu vou colocar vocês no meu livro!" Os intrusos partiram. Dantas perguntou o que ela queria dizer com aquilo. Ela se mostrou tímida no início, mas levou-o até o seu barraco e mostrou-lhe tudo. Ele pediu uma amostra pequena e correu para o jornal. A história de Carolina "eletrizou a cidade" e, em 1960, Quarto de Despejo, foi publicado, e rapidamente virou sucesso nacional, causando muito rebuliço, pois a elite queria saber como era uma favela por dentro, o que nunca puderam saber, por medo de entrar numa. Carolina de Jesus descortinou essa realidade. Clarice Lispector, a grande escritora e romancista da época, ficou impressionada com a escritora favelada. Numa sessão de autógrafos no Rio de Janeiro, a romancista foi conhecer Carolina e esta, com muita timidez, disse que não era uma escritora como ela, tão importante e festejada. Clarice diretamente lhe disse, olhando-lhe nos olhos: “Mas você é uma escritora que escreve a verdade”.

Carolina Maria de Jesus morreu na cidade de São Paulo a 13 de fevereiro de 1977. Deixou órfãos três filhos: João José (1949), José Carlos (1950) e Vera Eunice (1953). Deixou uma vasta obra, entre livros publicados e inéditos. Seu nome se tornou uma referência para a literatura periférica e de resistência no Brasil e no mundo. O grande escritor italiano Alberto Maravia, com toda a sua importância para a literatura europeia, encontro na obra da escritora mineira “a palavra de uma profundidade shakespeariana”.
Além do Quarto de despejos (1960), Carolina Maria de Jesus tem publicados: Casa de Alvenaria (1961), Provérbios (1963), Pedações de Fome (1963) e Journal de Bitita (1982), saindo inicialmente na França, iniciativa de jornalistas franceses, depois aqui no Brasil, como Diário de Bitita (1986). Entre os guardados, dispersos em instituições as mais diversas, como a Biblioteca Nacional e particulares, existem manuscritos de contos, poesias, memórias e romances.

Poeta e compositora, Carolina Maria de Jesus escreveu muitos versos, divulgados em jornais e revistas, e compôs letras de músicas, gravadas por ela no LP Quarto de despejo. Segundo a sua filha, a hoje professora Vera Eunice de Jesus, a mãe “queria ser cantora e atriz”. Na verdade ela foi tudo isso e mais a extraordinária escritora que completa um centenário, merecidamente festejado em todo o Brasil.

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